Desigualdade salarial, penalização da maternidade e sobrecarga ajudam a explicar maior adoecimento feminino no mercado de trabalho
O aumento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil acendeu um alerta para a saúde emocional no ambiente corporativo. Nesse cenário, a desigualdade de gênero aparece como um dos principais fatores de risco para o adoecimento feminino.
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) indicam que mulheres recebem, em média, 21% menos que homens exercendo a mesma função. Entre mulheres negras, a diferença salarial pode chegar a 47%.
Para a médica do trabalho Ana Paula Teixeira, autora do livro Quando o Trabalho Dói, essa desigualdade vai além da renda. “No Brasil, a desigualdade de gênero não é apenas um número no contracheque; é um fator de risco epidemiológico”, afirma.
Os reflexos aparecem nos indicadores de saúde mental. Estudos apontam que mulheres concentram cerca de 60% dos diagnósticos de Síndrome de Burnout, condição associada ao esgotamento extremo provocado pelo trabalho.
Segundo a especialista, a sobrecarga, a jornada tripla e a pressão profissional contribuem para esse cenário. A penalização da maternidade também pesa: levantamento da Fundação Getulio Vargas mostra que 48% das mulheres perdem o emprego até dois anos após o parto.
Para Ana Paula, enfrentar o problema exige mudanças estruturais nas empresas, como auditorias salariais, políticas de apoio à maternidade e práticas de gestão mais sensíveis às especificidades da saúde feminina.
“Acolher as especificidades das mulheres não é benefício; é estratégia de sustentabilidade para o trabalho e para a economia”, conclui.



