Cardiologista Sérgio Câmara explica como o diagnóstico precoce, a angioplastia e a integração entre equipes médicas aumentam as chances de sobrevivência

O infarto agudo do miocárdio atinge entre 300 mil e 400 mil pessoas por ano no Brasil, segundo estimativas do Ministério da Saúde, e pode provocar danos irreversíveis ao coração quando o atendimento demora. A cada cinco a sete casos, um resulta em morte. Diante desse cenário, especialistas reforçam que reconhecer os primeiros sintomas e garantir assistência médica rápida são medidas fundamentais para reduzir complicações e aumentar as chances de sobrevivência.
Segundo o cardiologista intervencionista baiano Sérgio Câmara, o tempo entre o início dos sintomas e a desobstrução da artéria coronária é um dos fatores mais importantes para preservar a função cardíaca.
“Quando uma artéria coronária é obstruída, parte do coração deixa de receber oxigênio. Quanto mais tempo essa circulação permanece interrompida, maior o risco de lesões irreversíveis. Uma linha de cuidado eficiente permite que as equipes atuem de forma coordenada, desde a suspeita do infarto até a intervenção”, explica.
Sinais de infarto exigem atenção imediata
Entre os principais sintomas estão dor ou pressão no peito, que pode irradiar para os braços, costas ou mandíbula, falta de ar, suor frio e náuseas. Mulheres, idosos e pessoas com diabetes também podem apresentar manifestações menos características, o que exige atenção redobrada.
Diante da suspeita de infarto, a recomendação é acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), pelo número 192, evitando que o paciente tente chegar ao hospital por conta própria.
O atendimento precoce permite iniciar a avaliação médica e encaminhar o paciente para uma unidade preparada para realizar os procedimentos necessários.
Diagnóstico deve começar nos primeiros minutos
No serviço de emergência, o eletrocardiograma deve ser realizado e interpretado, preferencialmente, em até dez minutos após o primeiro contato médico.
O exame, associado à avaliação clínica e, quando necessário, à dosagem de troponina no sangue, ajuda a identificar o infarto e definir o tratamento mais adequado.
Nos casos de infarto com supradesnivelamento do segmento ST, geralmente relacionado à obstrução aguda de uma artéria coronária, a prioridade é restabelecer o fluxo sanguíneo o mais rapidamente possível.
A angioplastia primária, realizada por cateterismo, é o tratamento preferencial quando pode ser executada dentro do prazo recomendado. Em determinadas situações, medicamentos trombolíticos também podem ser utilizados para dissolver o coágulo responsável pela obstrução.
Angioplastia pode reduzir danos ao músculo cardíaco
Na sala de hemodinâmica, o cardiologista intervencionista utiliza o cateterismo cardíaco para identificar o local da obstrução nas artérias coronárias.
O procedimento é realizado por meio da introdução de um cateter, geralmente por uma artéria do punho ou da virilha. Quando necessário, o especialista realiza a angioplastia, utilizando um pequeno balão para ampliar a passagem do sangue e, frequentemente, implantando um stent, estrutura metálica que ajuda a manter a artéria aberta.
“A hemodinâmica tem um papel decisivo no tratamento do infarto porque permite identificar e tratar a obstrução no mesmo procedimento. Quanto mais rapidamente conseguimos restabelecer o fluxo sanguíneo, maiores são as chances de preservar a função cardíaca e evitar complicações graves”, destaca Sérgio Câmara.
O especialista ressalta que a disponibilidade de equipamentos modernos precisa estar acompanhada de protocolos eficientes e comunicação entre as equipes de emergência, cardiologia e hemodinâmica.
“O resultado depende também da comunicação entre emergência, cardiologia e hemodinâmica. O tempo perdido antes do procedimento pode comprometer a recuperação”, afirma.
Recuperação exige acompanhamento após a alta hospitalar
O tratamento do infarto não termina com a desobstrução da artéria. Após a estabilização clínica, o paciente precisa manter acompanhamento cardiológico, utilizar os medicamentos prescritos e controlar fatores de risco como hipertensão, colesterol elevado e diabetes.
A reabilitação cardiovascular, quando indicada, também faz parte da recuperação e pode contribuir para melhorar a capacidade física e reduzir o risco de novos eventos cardíacos.
“O infarto não deve ser tratado como um episódio isolado. A recuperação exige adesão aos medicamentos, controle da pressão arterial, do colesterol e do diabetes, além de mudanças sustentáveis no estilo de vida. Nosso objetivo não é apenas salvar o paciente na emergência, mas ajudá-lo a viver mais e melhor”, conclui Sérgio Câmara.
A orientação dos especialistas é não ignorar sintomas suspeitos. Quanto menor o intervalo entre os primeiros sinais e o atendimento adequado, maiores são as possibilidades de preservar o músculo cardíaco e evitar sequelas.


