De ex-metalúrgico a símbolo de luta, ele ergueu seu nome com suor, sabor e o coração da comunidade
Na Silveira Martins, o cheiro do dendê vem antes da calçada. O barulho do tacho se mistura às risadas dos clientes. E quem comanda tudo ali, de pé, com o rosto suado, as mãos quentes e o sorriso sempre pronto, é Luciano Santana Gomes, 44 anos — o Sheik, o Big dos Bigs. Um homem preto, periférico, que fez do tabuleiro o seu império e da coragem, seu tempero principal. Com trabalho duro e fé no peito, ele virou ponto de referência no Cabula. Mas o caminho até aqui não foi fácil.
Ele já trabalhou como caldeireiro nas maiores indústrias do país. Usava capacete, bota pesada, vivia no meio de ferro e solda. Era parte da engrenagem de um Brasil que girava no ritmo das grandes obras da Petrobras. Até que a crise do Mensalão chegou como um incêndio: a empresa que o empregava foi atingida, os contratos caíram, a estabilidade ruiu. Sem chão e sem salário, Luciano — pai de família, morador no bairro de Itapuã — resolveu não esperar a sorte. Foi ele quem deu o primeiro passo.
Ao lado da irmã e dos irmãos, pediu demissão mesmo sabendo que perderia quase metade do acerto. Sem saber fritar um acarajé, sem tradição no ramo e sem nenhuma segurança, investiu o pouco que tinha num tabuleiro. “Eu não fui ver se dava dinheiro. Fui ver se dava certo. E fui pra dentro”, lembra.
E deu certo. O acarajé de R$ 1 virou febre em Salvador. No primeiro mês, o resultado foi impressionante. Em pouco tempo, ele deixou de ter um ponto e passou a comandar cinco. O que parecia temporário virou vocação. Construiu a casa própria. Criou os filhos. Ganhou respeito no bairro. Mesmo com os preços dos ingredientes subindo — trigo, azeite, camarão —, ele não arredou o pé do que acreditava: tamanho, sabor e preço justo.

Mas aí veio a pandemia. O lockdown forçou o fechamento dos cinco pontos. Dívidas chegaram. O medo também. E, mesmo assim, Luciano não virou as costas pra ninguém. Entregou cestas básicas aos funcionários. Segurou o que pôde. E criou, no meio da crise, uma nova marca: Big dos Bigs. Um delivery que cresceu com tanta força que virou referência. Com nomes criativos como o acarajé gigante croc croc e o abarà La’Crème, ambos patenteados, Luciano se reinventou mais uma vez.

“Hoje brinco com minha família que não estou construindo uma casa, mas uma mansão na comunidade”, diz com humor e orgulho. Depois de tudo que passou, ele prefere manter a discrição sobre conquistas materiais. Mas deixa claro que, com o que construiu, conseguiu garantir qualidade de vida e conforto para a família. Atualmente, vive em Itapuã com a esposa e os filhos, celebrando cada conquista com os pés no chão e o coração cheio de gratidão.

Quando o tabuleiro fecha, ele volta a ser o marido da guerreira Aline, mãe dos seus quatro filhos — Luan Adrian, Luciano Anthony, Luara Ayla e Lis Alice, todos com as iniciais dele e da esposa. É pai presente, herói da própria casa, companheiro de fé e de caminhada.
Diferente das baianas tradicionais, não usa traje típico. Atende em pé, de olho no movimento, com conversa direta e alma aberta. “A gente faz de tudo pra dar um atendimento olho no olho, de verdade. Mas com todo o respeito a todas as guerreiras e guerreiros de tabuleiro, porque isso aqui exige muito da gente. É amor, é esforço, é suor.”
No fim da conversa, ele olha pro lado, sorri e solta o que carrega no peito:
“Quem tem talento não tem patrão. Se errar, tenta de novo. Por Deus e sempre por nós. Crêia.”



