Especialista destaca que adaptação da rotina e apoio das empresas são fundamentais para garantir um retorno seguro e preservar a qualidade de vida das trabalhadoras

O retorno ao trabalho após o tratamento do câncer de mama pode representar um novo desafio para milhares de mulheres brasileiras. Embora a conclusão das terapias marque o fim de uma etapa importante, muitas trabalhadoras ainda convivem com fadiga persistente, limitações físicas, alterações emocionais e dificuldades de concentração, conhecidas como brain fog, que podem comprometer a readaptação à rotina profissional.
De acordo com estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028. Entre as mulheres, o câncer de mama permanece como o tipo mais frequente, respondendo por cerca de 30% dos novos diagnósticos.
Para a médica do trabalho Ana Paula Teixeira, autora do livro Quando o Trabalho Dói, o retorno ao ambiente profissional deve ser conduzido de forma planejada e humanizada.
“O retorno ao trabalho é um processo profundo de reconstrução da autonomia e da identidade da mulher. Quando conduzido com sensibilidade e planejamento, o ambiente profissional torna-se um pilar fundamental na sua recuperação”, afirma.
Segundo a especialista, a Medicina do Trabalho tem papel essencial na avaliação das condições individuais da trabalhadora, orientando adaptações temporárias de jornada, funções e pausas.
“Enfrentar o câncer não é, jamais, sinônimo de incapacidade e nem motivo de rotular a mulher a partir do seu diagnóstico. Por outro lado, é irreal e injusto exigir um retorno imediato ao mesmo ritmo de antes, ignorando os impactos físicos e emocionais do tratamento”, destaca.
Além do acolhimento no retorno, Ana Paula lembra que a prevenção também passa pelo ambiente corporativo. O INCA reconhece que exposições ocupacionais, como radiações ionizantes, óxido de etileno e o trabalho em turnos noturnos, estão associadas ao aumento do risco de câncer de mama. Segundo o instituto, até 5,13% dos casos da doença entre mulheres poderiam ser evitados com o controle desses fatores nos ambientes de trabalho.
Para a médica, o Outubro Rosa deve estimular mudanças permanentes nas empresas.
“O Outubro Rosa precisa evoluir para além das campanhas pontuais. É a oportunidade perfeita para as empresas assumirem um compromisso contínuo com a saúde feminina ao longo de toda a trajetória laboral”, afirma.
Ela reforça ainda que organizações preparadas vão além das ações de conscientização e investem em programas de saúde ocupacional, rastreamento da doença, respeito à privacidade e apoio às trabalhadoras durante todas as etapas do tratamento e da reintegração profissional.



