Outubro Rosa amplia debate sobre a saúde feminina e chama atenção para a carga de responsabilidades assumidas por esposas, filhas e irmãs diante da perda de um familiar
O Outubro Rosa, tradicionalmente voltado à conscientização sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama, também abre espaço para discutir outro aspecto da saúde feminina: a sobrecarga de responsabilidades que muitas mulheres enfrentam dentro da família. Além dos cuidados com a própria saúde, elas costumam assumir tarefas práticas e emocionais em diferentes momentos da vida, inclusive durante o luto.
Quando ocorre a perda de um familiar, é comum que esposas, filhas e irmãs fiquem responsáveis por organizar documentos, comunicar parentes, definir os detalhes da despedida e conduzir diversos procedimentos burocráticos, muitas vezes enquanto também enfrentam a dor da perda.
Uma pesquisa da Gênero e Número, em parceria com a Sempreviva Organização Feminista (SOF), ajuda a compreender esse cenário. O levantamento Sem Parar 2025 revelou que 43% das mulheres entrevistadas eram as únicas responsáveis pelo trabalho doméstico não remunerado, enquanto 48% cuidavam de crianças, idosos ou outros familiares sem receber remuneração. Além disso, 60% relataram cansaço e dores físicas. Embora o estudo não trate especificamente do luto, os dados evidenciam a concentração de responsabilidades sobre as mulheres.
Segundo Eduardo Fernandes, gestor de projetos do Campo Santo Familiar (CSF), esse comportamento é observado com frequência no atendimento às famílias.
“É muito comum que uma mulher seja a pessoa de referência naquele momento. Mesmo profundamente abalada, ela procura entender os procedimentos, confere documentos, conversa com os familiares e participa das principais decisões. Muitas vezes, é quem tenta organizar tudo para que os demais possam se despedir”, afirma.
Após uma morte, diversas providências precisam ser tomadas, entre elas a emissão da declaração e da certidão de óbito, autorizações legais, definição sobre sepultamento ou cremação e, posteriormente, questões relacionadas a benefícios, seguros, contas e inventário. Somadas ao sofrimento provocado pela perda, essas demandas podem aumentar o desgaste físico e emocional.
Cuidado também precisa ser compartilhado
Para Samara Bastos, coordenadora de marketing do Campo Santo Familiar, o acolhimento deve contemplar também quem assume a responsabilidade pelas decisões.
“A mulher que está à frente das decisões nem sempre é a que está emocionalmente mais preparada. Muitas vezes, ela apenas entende que precisa assumir esse papel. Por isso, as informações devem ser claras e transmitidas com sensibilidade, respeitando o tempo da família e evitando uma sobrecarga ainda maior”, destaca.
Ela ressalta que algumas conversas e planejamentos realizados antecipadamente podem reduzir a pressão diante de uma situação de perda.
“Conversar sobre preferências, manter documentos organizados e dividir responsabilidades não elimina a dor, mas pode evitar que uma única pessoa tenha de responder por tudo justamente quando está mais vulnerável”, orienta.
Eduardo Fernandes também destaca que familiares e amigos podem contribuir de forma prática durante esse período.
“Acolher não é apenas dizer palavras de conforto. É perguntar o que precisa ser resolvido, acompanhar uma providência, organizar documentos ou assumir uma tarefa. Compartilhar essas responsabilidades é uma forma concreta de cuidado”, conclui.



